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Práxis teológica: testemunho e missão

Práxis teológica: testemunho e missão. É muito fácil o estudante de teologia enganar-se numa analogia simplista de “teologia = vida acadêmica”. Pensar teologia numa relação com livros, a Bíblia e um escritório, não diz tudo sobre ela.

Nossa moderna concepção de mundo faz-nos pensar que o bom estudante é o que decora palavras e páginas. E em nosso caso, o bom teólogo é o que sabe sistematicamente fazer um discurso coerente a respeito de Deus, encaixando as doutrinas, o caráter de Deus e os versos bíblicos numa linguagem formal. Mas, é possível manejar palavras e páginas e elas estarem fora da realidade. Também é possível discursar sobre Deus, sem realmente conhecê-lo ou entendê-lo.

Raciocinar que o significado semântico de “Teo+Logia” é literalmente, do grego, “estudo de Deus” ou “ciência de Deus”, no mesmo sentido de se estudar numa escola ou universidade, é não compreender e nem saber sobre o Deus que se revela na história.

É bem verdade que os livros introdutórios de teologia desejam nos tirar da simplicidade do termo. Justo Gonzáles, por exemplo, explicará que “não basta dizer que teologia é a disciplina que estuda Deus, mas também é necessário considerar quem é este Deus que a Teologia estuda e como o conhecemos” [1]. Está afirmação, exige de nós as fontes que a teologia se baseia e o método que essas fontes deverão ser estudadas.

Neste cenário, o teólogo católico Libânio dirá que a teologia se faz, na dupla atitude de fé [fides qua, fides quae]. No sentido estrito, não faria teologia alguém que duvidasse da revelação, que estivesse em busca de uma certeza na fé que não tem. A teologia supõe uma posição de sintonia com a revelação cristã [2].

Isso significa, unindo essas duas concepções de modo acadêmico, que para se fazer teologia é necessário fé (o teólogo não faz a pergunta filosófica “Deus existe?”, mas a pergunta teológica “quem Deus é?”) e o estudo da revelação cristã (abrange as Escrituras, história, experiência pessoal). Em suma, fé e estudo da revelação cristã é a função teologal.

Ainda assim, essa definição de teologia pode ser morta. O problema não ocorre na definição em si, mas na incompreensão de “fé” e “estudo da revelação”. Isto é, o que você entende por “fé” e “estudo da revelação” é crucial para fazer teologia. O estudante que não tem claro essas expressões, poderá se entreter numa vida acadêmica em que fé é um conjunto de crenças e afirmativa na existência de um Deus; e que estudo da revelação é a dedicação intelectual sobre tudo que Deus falou ou falaram dele. Tudo isso, por mais nobre que seja, não é de sobremodo Cristão.

Se o teólogo é um homem religioso que estuda as Escrituras, deve perceber, a priori, que as próprias Escrituras o convida a lê-las teologicamente com interesse na práxis e missão. Como explica Keener, “a maioria dos autores bíblicos queria que os seus leitores implementassem as lições que eles transmitiram, e o seu ensino muitas vezes realça Deus, Cristo e a missão da igreja” [3].

O apóstolo Paulo, por exemplo, ao ler o Antigo Testamento, verá a fé de Abraão um exemplo para todos os cristãos (Rm 4). Do mesmo modo, Tiago usará as experiências dos profetas e de Jó como modelo para a perseverança (Tg 5.10,11). Os primeiros cristãos liam as Escrituras com fé pessoal, não somente para entendê-la, mas para receber a sua mensagem e cosmovisão teológica como verdadeiras para o mundo em que vivem.

Uma leitura do Livro de Atos rapidamente nos colocará no coração do autor, Lucas dá ênfase principal ao Espírito Santo que envolve para a missão. Esse é um resumo, a grosso modo, de Atos. Por isso, a promessa que Jesus faz do Espírito para o Pentecostes era uma promessa de capacitação para a missão (Lc 24.48,49; At 1.8).

Como seria estranho, na tentativa de definir teologia, uma falta de referência a “práxis e missão”, fundamentos para os autores da fonte da revelação que o teólogo ou proto-teólogo moderno desejam estudar.

O teólogo é cristão. Isso significa que não há como ler as Escrituras desassociado do discipulado que tal indivíduo se encontra. O estudo das Escrituras, não é compreensão de palavras antigas e encontro de contextos distantes, mas é, para o cristão – e somente esse pode ser teólogo – busca de entendimento para ação pessoal ou congregacional, na continuação da missão cristã.

Teologia não se faz na academia, antes de tudo, se faz no discipulado. E não se estuda Deus apenas com livros, mas se estuda livros (principalmente o canônico) para experimentar hoje a ação de Deus.

É importante ter ciência da máxima dos primeiros teólogos, que assim como o exemplo de Paulo, recorria as Escrituras para aprender da fé de Abraão e ensinar seus contemporâneos sobre fé. Fazer o oposto, como um teólogo que não estude com fé a revelação cristã para concretamente virar práxis dos seus contemporâneos, é tudo, menos continuação da missão cristã revelada por Jesus Cristo.

Uma melhor concepção de teologia pode ser encontrada nas definições de Clodovis Boff, se os termos explicados aqui estiverem claros na cabeça do estudante das Escrituras:

A Revelação de Deus não vem formulada em forma de sistema doutrinário, mas em forma de narrativa: a história de Deus. Conhecemos a Deus verdadeiro não apenas pelas palavras dos Profetas e Sábios, mas também e, sobretudo, pelos eventos que envolveram Libertadores e Reis. Igualmente, como conhecer o Cristo se não entrando no caminho de seu seguimento vivo? Ser discípulo aqui tem pouco a ver com escola, mas muito mais com a vida” [4]

A afirmativa de que Teologia é práxis e missão inibe uma concepção de um Deus na mente de um homem no escritório, que legisla e ensina mais de acordo com seu entendimento de Deus do que Ele de fato é. Somente os discípulos escutam os segredos de Deus e somente os que entram no discipulado entram no universo da teologia, mesmo sem os grandes manuais exegéticos.

Isso não significa que a carreira acadêmica não seja necessária para um teólogo. Mas, só é teólogo de fato o que é cristão. Os maiores teólogos te colocam no mistério de Deus, num caminho que leva ao acesso real com o Deus-Pai. Já os que pensam que são teólogos, te convidam a entrar numa fossa de religiosidade ou numa práxis partidária política. Estes, já se excluíram da continuidade da missão evangélica.

 

NOTAS do texto “Práxis teológica: testemunho e missão”.

 

[1] GONZALES, Justo L. Introdução a teologia cristã – Santo André, SP: Editora Academia Cristã Ltda, 2006, p. 14.

[2] LIBANIO, J.B e MURAD, Afonso. Introdução à teologia: Perfil, enfoques, tarefas. São Paulo, Loyola, 2011. p. 63

[3] KEENER, Craig. A Hermenêutica do Espírito: Lendo as Escrituras à luz do Pentecostes – São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 59.

[4] CLODOVIS, Boff. Teoria do método teológico – Petrópolis, RJ: Vozes, 1998, p. 160.

 

*”Práxis teológica: testemunho e missão” é um texto de propriedade intelectual deste site, fazendo-se necessário a citação do mesmo em textos que se utilizem do conteúdo aqui produzido.

Autor: Victor Santos

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