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Opção preferencial pelos pobres : quem são pobres para os evangelhos?

Opção preferencial pelos pobres : Quem são pobres para os evangelhos?. O evangelista Lucas relata em sua obra algo contundente: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6.20). Já o evangelista Mateus, expondo o mesmo sermão de Jesus, dirá: “Bem-aventurado os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5.3). Afinal, quem são os pobres para os Evangelhos? São os materialmente pobres ou os espiritualmente necessitados?

A caráter de exegese, sabemos que os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) apresentam paralelos. Os mesmos materiais eram usados em contextos diferentes na vida da igreja. Cada evangelista, utiliza os ditos de Jesus não para transcreve-los nos seus evangelhos, mas para ensinar cada comunidade em sua realidade. Por isso, já adiantando, não há erro em afirmar que existe bem-aventurança para os materialmente pobres, pois Lucas dá ênfase a essa situação. Mas, os Evangelhos não são exclusivamente uma opção preferencial aos financeiramente pobres, é por isso que temos o evangelista Mateus, que dá ênfase aos “espiritualmente humildes”.

Assim sendo, alguns teólogos contemporâneos facilmente afirmariam que hoje a atenção principal deve ser aos materialmente pobres, pois estamos numa época de esquecimento dos desamparados e de grande miséria em toda a parte do mundo. Muitos teólogos da libertação constantemente expressam desta maneira sua luta. Mas talvez essa afirmativa não seja tão verdadeira no que tange a economia. De acordo com pesquisas recentes, nos últimos 25 anos a população aumentou cerca de 2 bilhões de pessoas no planeta e mesmo assim o número total de pessoas em extrema pobreza caiu. O historiador Johan Norberg dirá que em 1820, 94% da população mundial viva em extrema pobreza. Em 1990, esse número caiu para 34,8% e, em 2015, para 9,6% [1].

Já o número dos espiritualmente pobres, algo improvável de ser contabilizado em estatísticas devido o complexo de validação, poderia ser representado aqui pelo crescimento de pessoas que se declaram sem religião no Brasil. Temos um país amplamente católico e protestante, mas, num período de dois anos tivemos um pulo de 6% para 14% de pessoas que se declaram sem religião [2]. É bem verdade que essas informações não representam aqueles que Marcos chamou de espiritualmente pobres, mas serve aqui apenas para pensar que talvez (apenas talvez) os teólogos preocupados com espiritualidade não estejam tão fora da realidade em contraste com os que se engajam na questão “social”, tendo por base os Evangelhos.

Não obstante, o que os leitores contemporâneos dos Evangelhos precisam ter em mente ao folheá-lo é que estamos diante de um cânon cristão. Isso porque a maioria das pessoas tende a assumir apenas a metade de um cânon (aquilo que lhes interessa). Os evangélicos tradicionais, por exemplo, tendem a ler apenas “os pobres de espírito”; e os ativistas sociais tendem a ler somente “vocês, os pobres” em contraste com “vocês, os ricos”.

Insisto aqui que as duas expressões são canônicas. Num sentido verdadeiro, os pobres reais são os que se reconhecem empobrecidos diante de Deus. Mas o Deus da Bíblia, que se encarnou em Jesus de Nazaré, é um Deus que pleiteia a causa também dos oprimidos e dos privados de direitos civis.

O pobre para os Evangelhos, pode ser Nicodemos, um fariseu que necessita nascer de novo (Jo 3.1-4); também pode ser Zaqueu, um publicano desonesto que necessita trilhar em generosidade (Lc 19.1-9), ou o pobre de espírito Pedro, que encontrou a vida no caminho do discipulado (Lc 5.9-11). Assim também como as mulheres ou pessoas marginalizadas que necessitavam do amparo da igreja (Tg 1.27).

O que não podemos fazer é afirmar que o pobre material é chave hermenêutica para nossa leitura das Escrituras, quando já o tema “pobre” é amplo para os próprios Evangelhos.

Muitos teólogos partidários tem uma pequena facilidade de padronizar o Evangelho em seu próprio tempo e perspectiva de visão de mundo. Algo que nem o cânon bíblico tenta fazer, que pelo contrário, demonstra a complexidade das relações humanas e necessidade de todos os pobres (tanto materiais como de espírito) alcançarem favor diante de Deus.

O que espanta, não são quem as Escrituras querem defender, mas as pessoas que tentam fazer das Escrituras trampolim político e religioso para seus ideais. Estes, fazem o seu cânon seletivo, utilizando os textos que lhes interessam para determinar o que deve ser feito. Entretanto, uma pequena leitura das Escrituras em seu contexto faria com que percebessem que existe um tampão nos olhos, nunca entenderam a sentença do Evangelho: “hipócrita, tire primeiro a trava do seu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do seu irmão” (Mt 7.5)

Todos nós, em algum aspecto, somos pobres para o ensino do Evangelho, carentes do recurso de Deus. Logo, isso já nos faz compreender que definir as coisas ao nosso próprio gosto sem uma leitura das Escrituras no contexto que Deus as deu é o oposto do pobre dependente que precisa da iluminação de Deus para saber como deverá atender a sua vocação. Os que se colocam suficientes com sua teologia talvez (apenas talvez) estejam distantes dos bem-aventurados que tem o Reino de Deus.

 

NOTAS do texto “Opção preferencial pelos pobres : Quem são pobres para os evangelhos?”:

[1] HAMMOND, Alexander CR.  The World’s Poorest People Are Getting Richer Faster. Disponível em: https://humanprogress.org/article.php?p=770. Acessado no dia 01 de ago. 2018.

[2] PINTO, Ana Estela de Sousa. Folha de SP: Deixam de ser católicos ao menos 9 milhões, afirma Datafolha. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/12/1844365-deixam-de-ser-catolicos-ao-menos-9-milhoes-afirma-datafolha.shtml. Acessado no dia 01 de ago. de 2018.

 

*”Opção preferencial pelos pobres: quem são os pobres para os evangelhos?” é um texto de propriedade intelectual deste site, fazendo-se necessário a citação do mesmo em textos que se utilizem do conteúdo aqui produzido.

Autor: Victor Santos

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