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Desigrejados: novos dilemas da eclesiologia

Desigrejados: novos dilemas da eclesiologia. As grandes revoluções do chamado “período das luzes” apresentaram uma nova configuração de sociedade. Se antes, a religião era estruturante para todos os povos (independente da religião) e inclusive existiu uma sociedade denominada Cristandade. Atualmente, as revoluções causaram algo inimaginável para os antigos, um sentimento a-religioso no Ocidente [1].

Além desta realidade, que é perceptível por muitos analistas, principalmente na Europa, cresce o número de pessoas que declaram-se cristãs, mas não frequentam nenhuma Igreja [2]. Estes, chamados de “desigrejados” são um grupo de pessoas que acreditam viver sua espiritualidade fora da religião. Quando confrontados pelos cristãos igrejados com a fala: “Você precisa ir para a Igreja”; a resposta de um desigrejado virá prontamente: Eu sou a Igreja!

Poderíamos debater essa situação com passagens bíblicas e tentar fazer uma teologia eclesiológica, mas acredito que o problema aqui reside nos termos “individualismo” e “coletivismo”. Seria muito unilateral teologizar biblicamente um problema cultural. Afinal, enfatizar que ir a Igreja é uma ordenança bíblica (Hb 10.25), deve-se também aceitar-se que nem toda a igreja é a de Cristo (Mt 24.4-5). Por isso, sem entender o problema cultural que vivemos e a essência cristã, toda a discussão sobre “congregar” fica limitada.

Ao afirmar, como expressa o título, que sozinho ninguém é a Igreja, estamos entrando no terreno do “coletivismo”. Declarando que o viver em coletividade é o que garante a ecclesia cristã. Inácio de Antioquia, para ensinar a Igreja cristã não exita em convocar a coletividade: “aquele que não participa da reunião é orgulhoso e já está por si mesmo julgado, pois está escrito: Deus resiste aos orgulhosos. Tenham cuidado, portanto, para não resistirmos ao bispo, a fim de estarmos submetidos a Deus” [3].

Inácio orienta a Igreja que se encontra em Éfeso com o tema da união. O indivíduo deve estar em harmonia com o bispo e os demais irmãos. Aqui, a Igreja se dá na coletividade e tem hierarquia, seria um grupo de cristãos organizados tendo Cristo como cabeça. É como os ditos de Paulo: membros de um só corpo (1Co 12).

Agora, quando é afirmado que juntos nem sempre se é Igreja, refere-se a uma lógica que não se contrapõe ao dado anterior. Isso porque, o mesmo Inácio de Antioquia critica os judaizantes quando escreve a Igreja de Filadélfia, dizendo: “Se não falam a respeito de Jesus Cristo, são para mim estelas e túmulos de mortos, sobre os quais estão escritos somente nomes de homens” [4]. Ora, para Inácio uma instituição sem Cristo é morta, não é frequentável pelo cristão. É por isso que o Evangelho de João enfatiza que somente os que receberam a Cristo (cada indivíduo), receberam o poder de serem chamados filhos de Deus (Jo 1.12).

O cristão só é cristão por conta de seu “individualismo”, é a resposta de um indivíduo numa decisão pessoal ao convite da Salvação em Cristo que possibilita este ser o Filho de Deus, sem mediações. Nesta questão, temos o indivíduo que é Filho de Deus, podendo afirmar sua identidade quando rejeita participar de uma instituição que “aparenta ser de Cristo” (se diz “cristã), mas não prega e nem convive como a essência cristã.

Nem sempre o desigrejado deixa o templo porque é orgulhoso, assim como nem sempre o igrejado frequenta uma instituição verdadeiramente cristã (não é loucura pensar que existem púlpitos que pregam tudo, menos o Cristo). Por isso, não é fácil fazer eclesiologia sem entender um problema profundo de “coletivismo” e “individualismo”.

Os que pregam a união e a harmonia em Cristo, sempre vão convidar-nos ao “coletivismo”. Mas o mesmo convite também poderá ser feito pelos autoritários, ambiciosos do poder, pelos interessados no topo da hierarquia a permanecerem legislando no topo de seus interesses.

O “individualismo” pode sugerir, por um lado, a indiferença ao próximo, o egoísmo, a concentração nos seus interesses exclusivos; de outro lado, sugere o dever de respeitar a integridade e a liberdade de cada indivíduo, isso coloca limites à consecução de nossos propósitos egoístas.

E o “coletivismo” apresenta, de um lado, a solidariedade, o sacrifício que cada um faz de si pelo bem de todos; por outro lado, evoca também o esmagamento dos indivíduos reais e concretos em nome de benefícios coletivos hipotéticos.

A Igreja de Cristo, não fere a consciência individual dos crentes em prol de um ideal coletivista fantasioso. A causa da instituição não pode ferir, descartar ou menosprezar a consciência individual, pois está é sagrada. Ao mesmo tempo, a Igreja de Cristo, não é composta de indivíduos distantes da reunião entre os cristãos que cooperam mutuamente em torno das Boas-Novas.

Assim como há cristãos em sua instituição sendo marionetes de um coletivismo político, partidário e poderosamente terreno; há aqueles que se distanciam da instituição por perceberem que sua consciência foi violada e se retiram como proteção individual, não exclusão ao próximo. Outrossim, há também indivíduos que se excluem da Igreja por seu desejo egoísta e sentimento a-religioso moderno; como há cristãos que conseguem ser membros inseridos no corpo, vivendo a fé genuína na coletividade.

Não estamos aqui justificando um desigrejado ou um igrejado. Estamos aproveitando o tema para lembrar que não podemos elevar a voz da autoridade pelo “coletivismo” e nem podemos dar vazão somente ao individualismo. Não se coloca todas as pessoas no mesmo pacote e as define. Na verdade, precisamos ser urgentemente cristãos. Isso implica uma decisão pessoal cristocêntrica em comunhão com a Igreja cristã cristocêntrica. Em suma, o ideal da Igreja de Atos 2, ainda que não alcançado, não pode deixar de ser o alvo eclesiológico.

Biblicamente, ninguém sozinho é igreja. E realmente, nem toda instituição é igreja cristã. Então, o ensino de Inácio é válido: “Meus irmãos, não vos enganeis. Aqueles que corrompem uma família não herdarão o Reino de Deus” [5]. Cada indivíduo se é cristão precisa estar em uma família, isso é inegável. Cada família cristã (Igreja) precisa ter somente um cabeça, o Cristo. Isso é uma crítica ao egoísmo que se dá no individualismo ou no coletivismo.

 

NOTAS do texto “Desigrejados: novos dilemas da eclesiologia”. 

 

[1] LOPES, Leiliane Roberta. Ateísmo cresce em todo o mundo, aponta pesquisa. Gospel Prime. Disponível em: https://noticias.gospelprime.com.br/ateismo-cresce-mundo-aponta-pesquisa/ (Acessado no dia 06/08/2018).

[2] CHAGAS, Tiago. Desigrejados: Cresce o número de cristãos que amam a Jesus mas abriram mão da Igreja. Gospel Mais. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/desigrejados-cresce-cristaos-abriram-mao-igreja-89729.html (Acessado no dia 06/08/2018).

[3] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Carta aos Efésios. V.III.

[4] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Carta aos Filadelfienses. VI.I

[5] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Carta aos Efésios. XVI.I

 

*”Desigrejados: novos dilemas da eclesiologia” é um texto de propriedade intelectual deste site, fazendo-se necessário a citação do mesmo em textos que se utilizem do conteúdo aqui produzido.

Autor: Victor Santos

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