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Como ouvir a voz do Espírito nas Escrituras?

Como ouvir a voz do Espírito nas Escrituras?. O estudante de teologia rapidamente se encanta com seus professores falando sobre “Hermenêutica”. Isso porque aprendemos no estudo das Escrituras que a Bíblia sem hermenêutica não é Bíblia. Ela é, de certa forma, Palavra de Deus por causa da hermenêutica, que a torna sempre atual e necessária falando aos leitores no seu tempo histórico.

Em outras palavras, “existe uma distância entre o texto e seu autor, pois, uma vez produzido, o texto adquire certa autonomia em relação a seu autor; ele começa uma carreira de  sentidos. Outra distância existe entre o texto e seus leitores sucessivos; estes devem respeitar o mundo do texto em sua alteridade. Os métodos de análise literária e histórica são assim necessários à interpretação. No entanto, o sentido de um texto só pode ser dado plenamente se ele é atualizado na vida de leitores que se apropriam dele. A partir da própria situação, os leitores são chamados a realçar significados novos, na linha do sentido fundamental indicado pelo texto. O conhecimento bíblico não deve se fixar só na linguagem, ele deve procurar atingir a realidade da qual fala o texto”[1].

Se a hermenêutica faz-se necessária, nem todo tipo de hermenêutica faz com que a Bíblia se apresente como Palavra de Deus. Neste ponto que muitos estudantes de teologia deixam de ouvir a voz do Espírito nas Escrituras e passam a estudá-la como mitologia e história.

Rudolf Bultmann, o grande influenciador de nossas hermenêuticas na academia, apresenta uma leitura teológica com uma abordagem existencial. Por uma influência de Heidegger, Bultmann vê a natureza comum entre autor e intérprete como uma condição para a possibilidade da compreensão[2], onde todo o encontro é possível somente por meio da natureza comum, de uma pré compreensão. Essa filosofia será típica do século 20 Bultmann deseja tornar esta teologia relevante para este século, adequando a mensagem de Jesus aos valores dominantes da era do intérprete.

Neste sentido, com sua ênfase na análise gramatical, formal e histórica. Definirá que embora Deus tenha atuado decisivamente em Cristo, isso é algo existencial, não histórico. Tudo que envolve coisas sobrenaturais passa a ser mito, a continuidade histórica não pode ser interrompida por intervenções sobrenaturais[3]. Para entender o mito bíblico, será necessário uma interpretação existencial. Os textos passam a ser traduzidos para o mesmo significado essencial e existencial.

Em Bultmann, a academia tende apresentar o discurso cristão em um mero comentário de cosmovisão moderna. O método histórico-crítico apresenta uma hermenêutica do Novo Testamento repensada nas categorias existenciais. É por isso que muitos professores de teologia modernos não conseguem discorrer sobre os poderes espirituais do modo que Paulo escreve em Romanos 8.28 ou Efésios 6.12. Para Gilbert Durant, “as idéias de Bultmann são típicas do círculo em que mergulha todo pensamento que busca um sentido enquanto se satisfaz em dar voltas lineares, prisioneiro da temporalidade histórica; em que a tradição passada remete à existência presente e vice-versa, indefinidamente”[4].

Então, diante da pergunta “Como ouvir a voz do Espírito nas Escrituras?” O máximo que os alunos de Bíblia estão conseguindo fazer é aproximarem-se história antiga, compreender melhor o significado da gramática hebraica e grega e às vezes, atualizar com alguns ensinos morais (tudo isso não deixa de ser um belo trabalho). Mas infelizmente, estes mesmos alunos tem o que chamamos de uma espiritualidade morta, estão distante da devoção congregacional, em conflitos entre fé x razão, se dedicam ao estudo e se distanciam da oração, interpretam as palavra do Jesus Salvador mas não sabem se realmente tais palavras são de Jesus.

Como resposta a este conflito e maneira de ouvir a voz do Espírito nas Escrituras, o teólogo carismático Craig Keener, em seu livro “A Hermenêutica do Espírito[5], irá apresentar um caminho que o cristão deve fazer hermenêutica, mesmo passo trilhado, segundo ele, pelos autores do Novo Testamento. A importância de apreender deste autor reside no fato de voltar a ler as Escrituras com a voz do Espírito, método que deve ser utilizado inclusive no meio acadêmico.

É bem verdade que Keener não despreza o método histórico-crítico, ele explica que para compreender um texto antigo é necessário uma exegese disciplinada. Para ele, os textos da Bíblia têm significados evidentes no contexto histórico e esse significado é a âncora da nossa interpretação. Por isso, a exegese é um método de chegar ao significado original pretendido no texto. Para fazer isso, é necessário estudar língua, cultura, história, história mundial etc. Esse é o método padrão de estudo dos textos. Não fazer isso seria impor nossas convicções ao texto, e ele diz: “Simplesmente impor nossas próprias agendas ao texto nos torna senhores do texto em vez de fazer com que nos submetemos a ele”[6].

Mas, a Hermenêutica do Espírito proposta por Keener não para neste processo, ele avança explicando que é preciso ler o texto como cristãos, com verdade. Os primeiros cristãos aprenderam os textos certos sobre Jesus, pois liam o texto à luz de sua experiência de Jesus (sua realidade em analogia com as Escrituras para aprender das Escrituras para falarem e te convidarem a ações na sua realidade com o auxílio do Espírito Santo). Falar isso não significa que deveremos repetir hoje todo tipo de experiências nas Escrituras, não é possível repetir a promessa angelical de que Maria dará à luz à um filho pelo Espírito Santo, mas podemos aprender da experiência de Maria, que recebe a mensagem de Deus e se submete ao Espírito e ao chamado de Deus como uma serva do Senhor.

Por isso, para o autor é necessário ler a Bíblia com o entendimento que nosso tempo é continuidade do que estamos lendo, isso faz com que seja possível receber a mensagem hoje para minha própria vida. O cessacionalismo, explica Keener, seria uma doutrina pós-bíblica, por isso, mais brilhante é ler as Escrituras como um modelo para entender como Deus atua em nosso mundo a viver à luz do texto. Esse entendimento nos apresenta a expectativa de um Deus que trabalha ativamente no mundo ao nosso redor, é um convite a experimentar a atividade de Deus do mesmo modo que os cristãos primitivos experimentaram, contanto que estejamos dispostos a nos engajar igualmente comprometidos na mesma missão.

Destarte, “a Bíblia a não é somente uma afirmação de revelação entre outras; ela é o que passou no teste do tempo (o cânon). Nossa audição pessoal de Deus é importante, mas Deus não falará algo agora que contradiz o que ele já falou ao longo de séculos por meio de apóstolos e profetas testados. Deus nos deu a Bíblia e proveu o dom espiritual de ensiná-la a fim de que pudéssemos avaliar as nossas experiências e deixar que as Escrituras dirijam o que fazemos com elas”[7].

Então, “como ouvir a voz do Espírito nas Escrituras?” De fato, é como nossos professores de bíblia ensinam: fazendo hermenêutica. Mas, como sugere Keener, essa Hermenêutica precisa ser do Espírito. Este método é um equilíbrio diante de dois extremos: a) que trata a Bíblia como uma série de presságios, em que versículos ou expressões fora de contexto falam diretamente à nossa situação. Aqui a relevância para os nossos interesses suplanta a mensagem original de modo que os nossos interesses se tornam um conjunto compulsório de parâmetros interpretativos; b) que lê o texto puramente por interesse histórico. Em estudos acadêmicos, muitas vezes lemos o texto desse modo a fim de fornecer uma base comum necessária para a discussão de ateus, cristãos e outros leitores. Essa abordagem se concentra em reconstruir o sentido histórico, um passo necessário e fundacional para o entendimento, e não é objetável em si mesmo.

O cristão precisa ler o texto como Palavra de Deus, isso só é possível com o auxílio do Espírito. Faça uma exegese, mas leia o texto como verdadeiro, com fé, a luz de Cristo e como uma mensagem para a sua ação. Para uma melhor compreensão do tema, não deixe de ler a obra de Craig Keener: A Hermenêutica do Espírito.

 

Referências Bibliográficas em nota no texto “Como ouvir a voz do Espírito nas Escrituras?”:

 

[1]  Comentário a Paul Ricoeur no Documento 134 da Pontifícia Comissão Bíblica. São Paulo: Paulinas, 1994. p. 89.

[2] Bultmann, “Problem of hermeneutics”, p. 73

[3] Bultmann, “Exegesis”, p. 147.

[4]  DURAND, Gilbert. A Fé do Sapateiro. Editora UnB. p. 155

[5] KEENER, Craig. A Hermenêutica do Espírito: Lendo as Escrituras à luz do Pentecostes – São Paulo: Vida Nova, 2018.

[6] Idem, p. 257

[7] Idem, p. 195

*”Como ouvir a voz do Espírito nas escrituras?” é um texto de propriedade intelectual deste site, fazendo-se necessário a citação do mesmo em textos que se utilizem do que conteúdo aqui produzido.

Autor: Victor Santos

 

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